TEMPS D'IMAGES 2010
28 OUT > 21 NOV
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
     
 
 
prémios de cinema para filmes sobre arte
3ª EDIÇÃO
   
 

VIVER COM INCERTEZAS
Don't Know We'll See (“Não Sabemos Vamos Ver”), o título do filme de Lucy Massie Phenyx, é provavelmente a melhor maneira de descrever os poderosos temas que são abordados nos filmes sobre a arte. A selecção de filmes deste ano - que em si já é um manifesto artístico - vai levar-nos, por caminhos variados e muitas vezes contraditórios, até esta incerta e entusiasmante área em construção, onde o espectador poderá instalar-se e onde será convidado a conhecer visões do mundo pouco habituais, comportamentos inesperados, ideias esquecidas, experiências arriscadas, ideias exaltantes e pensamentos estranhos, ao descobrir mundos novos e paralelos. Ao terem a experiência destes terrenos onde se situam os artistas - soltos, não fixos, sempre a mudar - e ao verem como se pode viver e criar neste contexto, os espectadores talvez se sintam mais fortes diante das incertezas da vida diária e profissional, que nos habituámos a delegar a companhias de seguro, especialistas ou líderes…
A começar pela imagem chocante de que os domínios do trabalho humano foram conquistados pelas máquinas, como se pode ver em HandMaid, do sul-coreano Mo Hyun-shin, todos os filmes vão provar que o trabalho artístico não consiste em calcular e, que por conseguinte, não pode ser substituído pela tecnologia. Como o realizador polaco Krzystof Olszowiec demonstra em Good Morning, parece, na verdade, impossível perceber o comportamento ou a acção de um artista unicamente pela observação: afinal, vimos um ser um humano ou um extra-terreste? As mesmas ideias nos vêm à mente quando entramos nos universos únicos de artistas como a portuguesa Ana Jotta em Jotta: A minha Maladresse é uma Forma de Délicatesse, de Salomé Lamas e Francisco Moreira ou a pintora canadiana Sullivan, em Sullivan, de Françoise Dugré. Alguns artistas permitem-nos perceber melhor as suas próprias explicações, como o fazem de modo tão belo Roca Bon em Roca Bon: la Geometria del Alma, do espanhol Karlos Alastruey, o escultor Selinger em Shelomo Selinger - Mémoire de Pierre, do realizador canadiano Alain Bellaiche ou o artista português Ângelo de Sousa em Ângelo de Sousa: Tudo o que Sou Capaz, de Jorge Silva Melo.
Às vezes, a relação entre o artista retratado e o realizador do filme é tão intensa que o realizador consegue revelar aspectos e reacções dos artistas que, sem ele, nenhum observador anónimo poderia descobrir. É o que se passa no audacioso filme sobre o audacioso Botero, Botero - Born in Medellin, de Peter Schamoni; no filme esteticamente belíssimo sobre as esteticamente belíssimas esculturas do artista israelita Zvi Lachmann em Rak Be'ayin a'hat (“Com um Olho Bem Aberto”), de Aner Preminger e Ami Drozd; quando Iria Arriaga observa com afecto e respeito, mas sempre como quem está diante de um descobridor, em Jorge de Oliveira - Matéria de Pintura; ou quando os aspectos formais do filme condizem com os da obra de arte, como em Sem Título, de Ana Direito.
A maneira como a arte é praticada também revela muito sobre o enfoque do artista, por exemplo na experiência Mercado do Bolhão: uma Experiência Fotográfica para uma Imagem de Autoria Colectiva, de Cristina Braga, em Dissonanz, de Fumiko Matsuyama e em A Conversation with Myself, quando Kate Pelling realmente executa a criação de uma performance de vídeo, deixando-nos com as dúvidas que ela própria tem… Com o filme sobre a sua performance, Thistles of Sazak, Hakan Akçura não nos dá sequer hipótese de escapar - o seu pesado trabalho para uma performance sob o ardente sol da Turquia é tangível.
A vida humana é absolutamente impensável sem a arte e temos aqui alguns exemplos em que a vida e a arte foram inseparavelmente ligadas: o realizador venezuelano Juan Andrea Bello fala-nos de um casal de Caracas, Armando Planchart e Ana Luisa (Anala), apreciadores de arte e arquitectura moderna, que levaram a cabo o seu audaz projecto de vida em colaboração com o arquitecto italiano Gio Ponti, numa casa chamada El Cerrito. De modo oposto, Le Cabanon pour Le Corbusier, de Rax Rinnekangas, mostra-nos a visão da vida que tinha o célebre arquitecto - mas o espectador vai ficar certamente muito surpreendido com o resultado… No que refere o génio excêntrico e criativo Trimpin, que detesta totalmente o mundo da arte, mas é adorado por artistas e músicos de todo o mundo, o realizador Peter Esmonde, em Trimpin: the Sound of Invention, consegue entusiasmar-nos ao apresentar-nos as esplêndidas criações desta personalidade tão instrutiva. Em Pelas Sombras, Catarina Mourão mostra a que ponto 80 anos de vida ou de arte são inseparáveis, quando a arte de Lourdes Castro se torna idêntica aos gestos da sua vida diária e vice-versa. E depois de vermos When the Themersons Walked Backward, no entusiasmante filme de Wiktoria Szymanska, vamos certamente perceber que o grau de poesia que pode haver nas nossas vidas só depende de nós…
A arte em relação à sociedade tem várias facetas. Uma faceta especial é mostrada no comovente Or les Murs, de Julien Sallé, que nos conta a história do compositor Thierry Machuel, que organiza workshops de escrita na penitenciária de Clairvaux, na região de Champagne-Ardennes. Os textos dos reclusos serão usados posteriormente nas suas composições, mas antes disto vemos homens numa prisão, que vivem, criam e sentem… Reza Haeri detecta no seu filme All Restrictions End o código secreto e/ou oficial da moda das vestimentas através na História iraniana, tornando mais uma vez evidente que a arte tem mais influência do que algumas pessoas são capazes de reparar. Em Mies-en-Scène, João O. também tenta revelar uma verdade, que ele pensa estar por detrás do Pavilhão Alemão, projectado por Mies van der Rohe para a Exposição Internacional de Barcelona de 1929 e leva-nos a uma ousada visita de descoberta. Na sua curta-metragem de animação Flesh Color, Masahiko Adachi revela simplesmente a beleza das tatuagens japonesas, de modo análogo ao que faz María Trénor em Exlibris, ao criar um poema visual sobre os livros como objectos de arte. Simon Jackson considera as suas duas curtas-metragens sobre artistas e músicos, Landlocked e Buddha, como “um comentário sobre o acto de criar arte a partir daquilo que nos cerca, ao invés de considerar que a arte só é importante se grandes passos forem dados e grandes distâncias forem atravessadas”. Sim e como naquilo que nos cerca tudo espera por ser descoberto, veja-se como o vídeo-flâneur Konstantinos-Antonios Goutos, em After Caspar David Friederich, nos mostra como a arte começa: com o olhar e o deslumbramento.
Se, como escrevi no começo deste texto, a incerteza, ao entrarmos em territórios desconhecidos, é o terreno da criação artística, também é evidente que há vários obstáculos a ser vencidos. Como diz a artista inuit Shuvinai Ashoona, “tudo é um ruído fantasma… É bom ouvi-los, mas não é bom aprendê-los” - a maneira como ela lida com isto pode ser vista na sensibilidade que marca Ghost Noise, de Marcia Connolly. Ao mesmo tempo, a própria arte traz um grau de estabilidade a esta incerteza, seja como protecção, como quando a artista Colette Urban nos pede que finjamos que não a vemos, em Pretend not to See Me, no filme de Katherine Knight, ou no extraordinário projecto do carismático Lluís Gàrcia, que nos seus workshops de pintura para pacientes esquizofrénicos faz com que os milagres sejam possíveis - como se vê no entusiasmante Retras (“Retratos”) de Quim Fuster e Pau Itarte, no qual ele faz penetrantes revelações sobre a psicologia humana. Vemos de modo muito pessoal e profundo a que ponto os factores psicológicos influenciam e inclusive inibem os espectadores das obras de arte, em Ein Weites Feld (“Territórios em Expansão”), da alemã Gerburg Rohde-Dahl, que envolveu a sua história pessoal e a da sua família ao tentar abordar o controverso Memorial para os Judeus Assassinados na Europa, em Berlim. Aqueles que pensam que esta questão é puramente alemã ver-se-ão diante de importantes reflexões sobre o sentido, as possibilidades e o significado dos memoriais de modo geral e é evidente que este em particular interpela todos os cidadãos do mundo. E podemos afirmar com absoluta certeza que mais ninguém consegue escapar ao que se passa no jogo de poder criado por Liliane Lijn em Power Game. Aqui cada um representa a sociedade humana e as convicções tornam-se transparentes: este é o nosso espelho.
Não Sabemos Vamos Ver.
Rajele Jain

 

Direcção e Programação Rajele Jain | Traduções António Rodrigues | Produção DuplaCena