TEMPS D'IMAGES 2009
29 OUT > 22 NOV
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
 
   
 
 
lúcia sigalho
E A MULHER TEVE MORTE QUASE INSTANTANÊA
   

 

 

 

 

 

Morreu uma mulher às nove horas da manhã à porta do infantário onde ia deixar o seu filho de seis anos. O ex-marido, um polícia a quem já tinha sido retirada a arma, roubou a arma de um colega, deslocou-se setenta quilómetros, fez-lhe uma espera, foi directo a eles, arrancou-lhe o filho e, com a criança pela mão, disparou dois tiros sobre a mãe. Matou-a e fugiu com a criança. O presidente da Câmara de Santarém declarou à imprensa que “a mulher teve morte quase instantânea”. Assim. Não sei mais nada sobre ela. Sequer o nome, a cor dos cabelos, se era alegre ou triste ou o que levava nos olhos. Mas este apagamento, este esquecimento que a morte lhe trouxe é a morte “matada”. Ela passou a ser “a mulher”, “a mulher” morta. E a memória, a memória dela, passou a ser nada.
No meu país, todas as semanas morre, pelo menos, uma. Todas as semanas há uma mulher morta por um homem que é, foi ou pretendia ser seu namorado, seu marido, seu amante. Todas as semanas, há uma que passa a ser “a mulher”: sem in memoriam, sem rasto nem história, que deixa de existir assim, trocada em números para a estatística.
Lúcia Sigalho

 
Dramaturgia, Pesquisa e Textos – Lúcia Sigalho, Fernanda Câncio e Mafalda Ivo Cruz | Interpretação – Deborah Crystal e outros a anunciar | Som – João Lucas | Luzes – Daniel Worm D’Assumpção | Cenário e Figurinos – João Pedro Vale | Produção – Sensurround | Co-Produção – Festival Temps d’Images e Teatro Maria Matos
Sensurround é uma estrutura financiada pelo Ministério da Cultura / Direcção Geral das Artes