TEMPS D'IMAGES 2009
29 OUT > 22 NOV
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
         
   
 
   
 
 
prémios de cinema para filmes sobre arte
2ª EDIÇÃO
   
 

«Porque fazem filmes sobre artistas? É para documentar um trabalho artístico, ou para promover um artista, ou são filmes educacionais, encomendados pela TV ou coisa assim?», perguntou-me recentemente uma amiga, realizadora e guionista portuguesa bem conhecida, intrigada com o meu entusiasmo em receber e ver tantos filmes para a competição – cerca de 200 vindos do mundo inteiro. E então expliquei-lhe a investigação do realizador israelita DAN GEVA, no filme DESCRIPTION OF A MEMORY, que começa com o seu inesquecível grito «Que sonho restou? Vá, digam lá!», onde tenta descobrir o que Chris Marker previu realmente no filme Description of a Struggle, premiado em Berlim em 1962. Intenção semelhante é a do japonesa RIKA OHARA ao confrontar de forma descomprometida o pensamento de Yoko Ono com o mundo de hoje, no seu filme THE HEART OF NO PLACE, ou a de CEDRIC VENAIL na pegada do artista franco-israelita Absalon, que morreu aos 29 anos mas nos deixou A VIRUS IN THE CITY – todos eles demonstram que um artista tem o poder de comover ou inspirar as outras pessoas para o resto da vida. Contei-lhe que me vi literalmente sentada em casa do famoso pintor COLVILLE enquanto ele falava da sua vida e do seu trabalho de forma tão solta e íntima, tornando evidente a confiança que depositava em ANDREAS SCHULTZ quando este se propôs fazer um filme acerca dele; igual comportamento encontramos no artista Wolfgang Tillmans em relação ao realizador alemão HEIKO KALMBACH no filme IF ONE THING MATTERS – a film about Wolfgang Tillmans. Testemunhei o segredo e o risco quando Michael Biberstein pinta um quadro no filme O MEU AMIGO A TRABALHAR, do realizador português FERNANDO LOPES; suspendi a respiração ao entrar no universo do tão insultado pintor Gottfried Helnwein, graças à sensibilidade artística da realizadora CLAUDIA SCHMID no filme THE SILENCE OF INNOCENCE – The Artist Gottfried Helnwein; e, sim, até conheci Arnold Schwarzenegger sentado no seu escritório a falar de arte! Estes filmes não podem ser pura e simplesmente «encomendados» – requerem um entendimento e confiança mútuos, profundos, entre o realizador e o artista, podem levar anos a realizar, 40 anos no caso do filme de JEFFREY PERKINS intitulado THE PAINTER SAM FRANCIS, que me fez correr as lágrimas ao saber que este grande artista tinha morrido no ano passado... A minha amiga realizadora sentiu curiosidade de ver como se combinam múltiplos obstáculos e grandes esperanças na vida de um artista, como nos é dado ver em CINEMA PARADISE, do realizador coreano KIM TAI-YONG, ou as reacções ao processo de selecção artística em ART AGAINST THE ODDS, de R. F. SIMPSON. Consegui por fim convencê-la de que é possível haver filmes inspiradores, não didácticos, sobre artistas que podem nem sequer falar para a câmara ou já ter morrido, como acontece em BARTHOLOMEU CID DOS SANTOS – Por terras devastadas, de JORGE SILVA MELO, que me disse: «Não houve artistas da Guerra Colonial; não era conveniente, evidentemente...» – ideia que nunca me tinha ocorrido –, ou em ISA HESSE RABINOVITCH – Das Grosse Spiel Film, de ANKA SCHMID, onde conheci uma incrível pessoa/artista que, não se demovendo com obstáculos na prossecução do seu trabalho, antes os tomava por desafio: «A partir da minha existência estrangeira e marginal tento construir um sentimento de orgulho...» Confesso que me foi impossível descrever à minha amiga o que senti ao ver o filme EL SISTEMA, de PAUL SMACZNY e MARIA STODTMEIER, acerca do visionário músico venezuelano Jose Antonio Abreu, que com a sua força e arte já consegui transformar para melhor a vida de milhares de seres humanos, e continua a fazê-lo... e como fiquei sem palavras ao conhecer a personalidade e obra do poeta bósnio Goran Simic no filme WHEN YOU DIE AS A CAT, de ZORAN MASLIC – porque às vezes pode parecer embaraçoso e humilhante reconhecer que a arte é de facto uma estratégia de sobrevivência humana... pelo que toda a gente terá de ver na tela para crer... As intervenções artísticas em público são ainda mais surpreendentes quando compreendemos a visão do artista, como nos é dado a ver em DAYDREAMING IN PUBLIC, de SOFIA PONTE e TIAGO PEREIRA, ou em ON INDIAN TIME. ON RIGO 23, de LUIS CARAPETO. Quando me deparei com as transformações artísticas da realidade no filme TERRITÓRIOS DE PASSAGEM, de SOLVEIG NORDLUND, custou-me a crer nos meus olhos; e AUTOMORPHOSIS, de HARROD BLANK, metamorfosear-nos-á a todos, seguramente... E depois há aquela faceta da prática artística... quando os artistas parecem tão por dentro de... coisas que nos escapam... e magistralmente detectam ligações e relações. É o caso de CALDER – Sculptor of the Air, de FRANÇOIS LEVY-KUENTZ, maravilhosamente narrado: «Adorei o nariz dela. Parecia lançar-se no espaço» – razão bastante para o fazer visitar o planetário... Ou do exi[l]stencialista videoflaneur KONSTANTINOS-ANTONIOS GOUTOS, que este ano voltou a descobrir uma coisa «sem propósito nem plano» que nos é apresentada no seu filme MALANCHOLIA I, tão claro, tão por dentro, tão evidente, que nos interrogamos: mas porque nunca vi eu isto, desta maneira? Por fim creio ter conseguido convencer a minha amiga realizadora dos atractivos do programa deste ano e de que não se trata de fazer grandes planos sobre quadros, nem de espiar um escultor a talhar a pedra enquanto resmoneia umas explicações acerca da sua obra, nem de fazer diaporamas animados por uma voz jornalística a tecer loas à história e importância do artista, nem de três horas de documentação acerca de uma performance que devia ser assistida ao vivo, a três dimensões, e não na planeza de uma tela! Tão-pouco se trata de filmes experimentais. São, simplesmente, filmes sobre arte. Mas quando finalmente lhe falei da ideia nova, notável, que tínhamos para forçar a consciência da importância e do atractivo da arte para toda a gente – e da sua aceitação por parte da RTP2 – alargando a competição de cinema às antenas de emissão, utilizando o voto público na selecção do TEMPS D’IMAGES|RTP2 – PRÉMIO DE AUDIÊNCIA PARA FILMES SOBRE ARTE, aí consegui pasmá-la. Peço-lhes que vejam o programa e respectivos pormenores no catálogo do TEMPS D’IMAGES PRÉMIO DE CINEMA PARA FILMES SOBRE ARTE 2009, que reservem as vossas noites de 2 a 12 de Novembro às sessões de televisão, e os vossos dias de 13 a 15 de Novembro ao festival no Museu Berardo, e que levem a cabo a vossa própria investigação sobre «Que sonhos restam? Vá, digam lá!»
Rajele Jain, Setembro 2009