TEMPS D'IMAGES 2008
29 OUT > 17 NOV
   
         
   
         
   
         
   
         
   
 
   
 
 
inês jacques e edgar santinhos
SÍNCOPE
   
 

Lá estava ela no meio daquele espaço de silêncio esbatido, de abandono, composto por carcaças de automóveis empilhadas que aguardam pela chegada do tempo para se transformarem em pó. A pele branca contrasta com o ocre do óxido de ferro, com o castanho-escuro, com o negro da fuligem. A suavidade láctea dos movimentos e da cor do seu corpo são recortados pela dureza da chapa, do metal encarquilhado, torcido, esmagado e disforme. Que faz ela ali? O que a leva a estar ali? O silêncio? As memórias de tristeza, de felicidade, que residem naquele lugar? Memórias já sem dono, dispersas e fragmentadas, anacrónicas, depositadas nos restos de coisas que já foram coisas. Ela move-se entre a luz exterior de um sol alto e ofuscante e a penumbra dos interiores das viaturas sinistras. É um ritmo visual de luz, negro, luz, negro. Um compasso que a acompanha nos seus movimentos. Mas porque está ela ali? Procura a sua própria redenção, a reconstrução de uma tranquilidade que foi perdida numa estrada em que os traços eram de giz e o pavimento de ardósia negra como os quadros de escola, foi qualquer coisa que escreveu, num percurso em que se despistou e por mais que retome os acontecimentos passados, não os consegue sequenciar na ordem certa. É esse lapso, a fractura que não se refez, que a assombra nos gestos mais simples, entre as palavras pronunciadas, ditas e ouvidas, no intervalo do som, no silêncio. Sim, é por isso que ela ali está, porque encontra naquele lugar o maior dos silêncios, o maior dos seus receios, é o desejo de confronto com aquilo que não se lembra que a impele a escutar atentamente as vivências mudas de tempos remotos que ali residem.

 

Concepção e direcção Inês Jacques e Edgar Santinhos
Câmara Edgar Santinhos
Som Ricardo Ganhão
Interpretação Inês Jacques
Produção Zut!
Co-Produção DuplaCena/ Temps d’Images