PREÇO ÚNICO: 10€
CONCEPÇÃO E DIRECÇÃO: VERA MANTERO E MIGUEL GONÇALVES MENDES | PRODUÇÃO: O RUMO DO FUMO E JUMPCUT | CO-PRODUÇÃO: FESTIVAL TEMPS D’IMAGES E CIRCULAR - FESTIVAL DE ARTES PERFORMATIVAS E FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN | DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA: EDMUNDO DIAZ | DIRECÇÃO DE SOM: FILIPE TAVARES | DIRECÇÃO DE ARTE: PAULO REIS | MONTAGEM: CLAÚDIA RITA OLIVEIRA | DIRECÇÃO DE PRODUÇÃO: ANA JORDÃO E PATRÍCIA ROMÃO | INTÉRPRETES: ARIANA MAIA, IÚRI PERES, RAFAEL BOUÇA NOVA, RAQUEL PINTO, RODRIGO LARANJEIRA, TELMA CRUZ, MIGUEL GONÇALVES MENDES | PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: PAULO VASQUES
“Escusam de me vir dizer que o mundo, a que o texto faz apelo, não existe, porque isso é o que eu sei desde o principio (…).
Há muito real que não consegue existir, e há muitíssima existência que não tem (nem nunca teve) realidade alguma.
A maior parte do que existe é miséria alucinada”.
Maria Gabriela Llansol
Vera Mantero e Miguel Gonçalves Mendes foram convidados pelo festival Temps d’Images em co-produção com o Circular-Festival de Artes Performativas para apresentar uma criação conjunta na qual se entrecruzassem as suas diferentes áreas de criação artística – a dança e o cinema.
Deste convite surge “CURSO DE SILÊNCIO”, um filme baseado no universo imagético de Maria Gabriela Llansol e que, ao seguir o seu processo de construção narrativa, irá explorar a chamada “cena fulgor”. O núcleo das cenas fulgor pode ser uma imagem, um pensamento ou um sentimento intensamente afectivo.
Não nos encontramos pois, perante a realidade na sua totalidade mas antes no que deveria ser o cerne dessa realidade. Num universo em que o banal é retirado ao real tornando-se assim extraordinário.
Segundo a autora a forma tradicional como se contam historias ou se constrói narrativas apaga o nosso poder de imaginação e por isso, tal como na sua escrita, neste filme a narrativa não será desenvolvendo mas sim envolvendo.
Para a construção deste guião partimos de diferentes livros e entrevistas da autora que nos permitem não só abordar a sua obra de uma forma transversal como também respeitar a sua ideia, a de que existem imagens nucleares (cenas fulgor) em que a temporalidade ou a espacialidade é inexistente e que a sua colagem deve ser feita segundo um desígnio que escapa ao leitor (leia-se espectador), impossibilitando assim a sua classificação. Este filme, tal como os seus livros, recusa a metáfora. Tudo são fragmentos apenas compreensíveis na globalidade da leitura.
Assim, mais do que procurar-se uma história procuram-se gestos, acções, sensações e afectos que, ao serem explorados, nos transportam para o possível “espaço edénico” de que fala Llansol.
Imagine-se então um espaço - uma casa - e um tempo indeterminados. Imagine-se que várias crianças à guarda de uma mulher estão a ser preparadas para a vida, para o mundo. Que nesta casa o saber transpira por toda a parte. Que ouvimos discursos de Nietzsche nas paredes, textos de S. João da Cruz no chão e que a vida que brota no jardim lhes faz compreender a finitude do universo.
Nesta casa/escola, atrás de cada porta, encontram-se portais. Portais que nos transportam ao mar, a florestas e a grutas repletas de livros. Livros que nos permitem compreender que esta casa é habitada pelos vivos que os lêem e pelos mortos que os escreveram.
Esta casa onde os corpos vibram pretende ser uma amostra do universo.
O que a “Educadora” pretende para estas crianças é que criem uma nova linguagem porque “quando uma nova linguagem nasce, o corpo transforma-se com ela” e aí podemos transformarnos num novo ser. Numa espécie de cadeia de sucessão de seres que irão ganhando a cada metamorfose uma grandeza maior.
O texto de Maria Gabriela Llansol não se guia por desenvolvimentos temáticos, nem por enredo mas sim pelo fio que liga as diferentes cenas fulgor que o compõem. É esta forma de escrita que procuramos na construção deste filme.
Um afecto quando não se transforma morre.
Talvez seja sobre a atracção. A qualidade mística de um movimento. Com tantas perguntas: Qual é o momento onde o movimento se torna ousado? Atraente? Incómodo? Podemos mostrar aquilo que não podemos esconder? E o que é que acontece se o fizermos?Será desconcertante ou sedutor? Superfície escorregadia.
A coisa mais funda é a pele, diz Paul Valéry. Quão fundo é o mais fundo?
Há um limite onde a pele parece perder a sua profundidade.
Será que a beleza se torna então uma palavra feia? Esse momento de dúvida é um ponto de encontro onde o gesto se torna um desafio para quem olha. Este é o ponto que queremos encontrar.
