Lá estava ela no meio daquele espaço de silêncio esbatido, de abandono, composto por carcaças de automóveis empilhadas que aguardam pela chegada do tempo para se transformarem em pó. A pele branca contrasta com o ocre do óxido de ferro, com o castanho-escuro, com o negro da fuligem. A suavidade láctea dos movimentos e da cor do seu corpo são recortados pela dureza da chapa, do metal encarquilhado, torcido, esmagado e disforme. Que faz ela ali? O que a leva a estar ali? O silêncio? As memórias de tristeza, de felicidade, que residem naquele lugar? Memórias já sem dono, dispersas e fragmentadas, anacrónicas, depositadas nos restos de coisas que já foram coisas. Ela move-se entre a luz exterior de um sol alto e ofuscante e a penumbra dos interiores das viaturas sinistras. É um ritmo visual de luz, negro, luz, negro. Um compasso que a acompanha nos seus movimentos. Mas porque está ela ali? Procura a sua própria redenção, a reconstrução de uma tranquilidade que foi perdida numa estrada em que os traços eram de giz e o pavimento de ardósia negra como os quadros de escola, foi qualquer coisa que escreveu, num percurso em que se despistou e por mais que retome os acontecimentos passados, não os consegue sequenciar na ordem certa. É esse lapso, a fractura que não se refez, que a assombra nos gestos mais simples, entre as palavras pronunciadas, ditas e ouvidas, no intervalo do som, no silêncio. Sim, é por isso que ela ali está, porque encontra naquele lugar o maior dos silêncios, o maior dos seus receios, é o desejo de confronto com aquilo que não se lembra que a impele a escutar atentamente as vivências mudas de tempos remotos que ali residem.
Concepção e direcção Inês Jacques e Edgar Santinhos Câmara Edgar Santinhos Som Ricardo Ganhão Interpretação Inês Jacques Produção Zut! Co-Produção DuplaCena/ Temps d’Images