NO MICROFONE // LEITURAS E CONFERÊNCIAS

RUI CATALÃO // A GRANDE DIVIDA
ESPAÇO ALKANTARA | 10 DEZ > 19h // Entrada Livre
CARPE DIEM ARTE & PESQUISA | 11 + 17 + 18 DEZ > 18h00 // Entrada Livre

// A GRANDE ILUSÃO (de Sofia Dinger)

  Em 2014, colaborei durante dois meses com a actriz Sofia Dinger, para a sua peça “A Grande Ilusão”. Uma semana antes da data de estreia no Teatro Maria Matos, Sofia Dinger cancelou a apresentação da peça. No processo, em que se estabeleceu um diálogo com a obra escrita e filmada de Jean Renoir, foram testadas 5 versões. A partir deste fracasso, tentarei abordar a “maldição” dos trabalhos que não se deixam fazer, procurando também explorar o que é isso de um trabalho “acabado” e o que é isso de um trabalho “inacabado”, no contexto bem subjectivo da produção artística. A “questão do prazo”, dos “custos de produção”, dos “valores de classe” e do “factor x” ajudar-me-ão certamente a ser entendido...
// A ROSA E O SINO
  Em “A Rosa de Paracelso”, pequeno conto da velhice de Jorge Luís Borges, as preces do grande mestre alquímico são escutadas, e ele é visitado por um estranho que se oferece para tornar-se seu aprendiz. Mas o pretendente exige uma prova de que Paracelso é um verdadeiro mestre e Paracelso exige-lhe o caminho da fé. Uma rosa é atirada ao fogo. Se Paracelso fizer ressurgir a rosa das cinzas, é porque os seus conhecimentos são verdadeiros. Mas se levar a demonstração avante confirma-se que o discípulo não é merecedor dos seus conhecimentos e Paracelso hesita em abrir a mão que contém as cinzas ou a rosa.
No último episódio do filme Andrei Rubliov, de A. Tarkovsky, o jovem Andriocha, filho de um mestre sineiro, convence um cliente que o seu pai lhe ensinou o ofício de construir sinos antes de morrer. O sino é construído com grande sucesso, mas no final ficamos a saber que o pai de Andriocha nunca lhe ensinou o segredo de construir sinos.
A partir destas duas histórias sobre a fé, pretendo explorar o mistério do conhecimento, da experiência, e de como resolver problemas para os quais se desconhecem soluções.
// CONQUISTA DE CEUTA
  Para financiar os meus estudos, nos anos 80, ainda com as fronteiras a separarem os países europeus, a minha mãe, operária, começou a fazer viagens de negócios a Ceuta, fazendo contrabando de produtos que comprava no norte de África para depois vender às colegas em Portugal. A partir do relato de algumas das aventuras que partilhei com ela, “A conquista de Ceuta”, é também um regresso à História de Portugal, com o início da expansão marítima (iniciada exactamente em Ceuta), quando Portugal deixou de ser uma pequena nação e começou a descobrir novos horizontes fora da Europa.
// A DÍVIDA FAMILIAR
  Em 2003, descobri uma fotografia de um filho no momento do seu pai ser enterrado, na sequência de um terramoto. Essa fotografia deu origem à escrita de um romance que não cheguei a acabar, “A dívida”. Esse romance resultou de uma negociação com o meu pai: ele deixar-me ficar na casa da minha avó paterna até eu acabar de escrevê-lo. Onze anos depois, o objectivo desta apresentação é contar, à frente do público, a verdadeira história desse romance, que é também a história de uma dívida para com a minha família, pela forma como apoiaram a minha actividade artística. Esse romance é também a história de uma geração que vive ainda dependente financeiramente da família; do seu modo de vida sem correspondência com o mercado de trabalho. É ainda a história de uma geração que tarda em confrontar-se com a realidade, em comparação com as suas expectativas e os objectivos que definiu para si.
Fotos de Patrícia Almeida

A Grande Dívida é um ciclo de conferências em que as mais improváveis formas de endividamento são abordadas. É uma paródia aos estudos performativos, com um artista de palco no lugar do conferencista: cada tema é apresentado e desenvolvido, há uma conclusão e uma sessão de perguntas & respostas. É uma série de actos performativos em que a vida contemporânea é analisada, recorrendo a referências mais antigas. É teatro sem aparato cénico: apenas o prazer de contar histórias, de explorar as diversas dimensões do corpo humano e de usar a memória para reflectir sobre o presente como se apresenta.

Criação e interpretação: Rui Catalão | Assistência técnica (imagem): Urândia Aragão |Produção: Produções Independentes - Tânia M. Guerreiro | Apoio: Fundação Calouste Gulbenkian * Classificação Etária - Maiores de 12